shidon soares


ENCARNADO

 

Se ao virar a derradeira esquina,

De lá vier alguém e perguntar,

-Eaí, como foi?

Sem dó e na lata vou responder:

-Dói ser humano.

 

17 de maio de 2012



Escrito por shidon às 19h29
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DECIDIDA

 

Então,

Já era

Já passou

Não volta mais,

Tô seguindo e não quero nem vou olhar para trás.

 

E tô pondo vírgula só prá aliviar,

Fora disso, sem essa de reticências,

Risca ponto e vírgula

Trema nem de pé nem caída,

Exclamação, interjeição,

Traço cecidilha e mais

Tudo isso tô dispensando.

 

É simples,

Esqueça os dois pontos,

Tira o prágrafo da reta,

Vamos direto ao assunto,

Sem complicar com pontuação

Vou repetir pela segunda e última vez

Já era

Já passou

Não volta mais,

Tô seguindo,

Assim é a vida,

Se houver, até a próxima esquina,

Já era 

Já passou

Não volta mais

Tô seguindo

Não quero nem vou olhar para trás.

 

17 de maio de 2012 - Possivelmente para musicar





Escrito por shidon às 15h53
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Escrito por shidon às 14h50
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MEU NOME É ORGULHO

 

Sim,

Guardo em minhas gavetas abismais

Nos vasos fundos das veias fundas

Sob o escuro dos túneis dos meus ossos

Debaixo dos porões úmidos da minha carne,

Todos lá guardados,

Na ordem da desordem do sangue,

Espalhados pelos corredores da alma,

Às vezes silentes quietos angelicais,

De outras bestiais devassos e insanos,

Sózinhos, em dupla, em bandos,

Guardo no maior zêlo

Em minha caixa de ventos e sonhos e segredos,

Todos eles marcados e prontos.

 

E tenho em conta que cada um tem o seu peso,

Para cada cena e ocasião a sua medida fala e ponta.

 

Mas entre todos vejo,

Espelho claro ardente vaidade

Entre todos vejo aquele que,

Ainda que carregando da vida todo lixo entulho pranto,

De todos os meus demônios,

De todos que entram em cena no diário da minha vida,

Há um demônio que mais me espanta,

É aquele que atende pelo nome

E Orgulho se chama.

 

17 de maio de 2012



Escrito por shidon às 14h19
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TRANSMIGRAÇÃO

 

Breve,

Parto de viagem.

E quando o outro houver nascido

Serei eu mesmo noutro lugar.

 

15 de maio 2012



Escrito por shidon às 13h17
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CONFUSÃO

 

Foi hoje, 

Agora me lembro.

 

Feito foice

No ar

O corte 

O silêncio.

 

Tão logo acordei percebi,

Claro o metal do pensamento,

Estava confuso,

Talvez a razão tornada loucura.

 

Me olhava ao espelho

E tinha as três respostas para as perguntas,

Sabia quem eu era de onde vinha e para onde ia.

 

9 de maio de 2012

A propósito de um comentátio no FB da poeta Sandra Regina.

 



Escrito por shidon às 18h20
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SETE DIAS

 

A viagem segue,

Nem rápida nem lenta

Apenas prossegue

Na caminhada o caminho se inventa.

 

E assim se faz um domingo,

Em que um domingo é igual ao domingo de hoje,

A estúpida esperança renascida,

Em praça pública vista e apreciada

Ao final da feira do primeiro dia

A flor já morta e despetalada.


E então vem o segundo dia,

Uma dia tal e qual ao de amanhã...

-Não, não direi "o dia de amanhã",

 Dele nada sei-.

E então a segunda-feira será outra

Entre tantas outras segundas chances,

Esferas a rolar pelo espaço o cansaço,

A lenta maceração dos minutos crus,

Insano ruminar de sonhos em pedaços.

 

Chega terça-feira,

E já às nove terei tomado

Entre comprimidos decisões que não realizarei,

E o dia passará,

Cancela a cancela uma promessa esquecida,

E ao final do dia estarei amargo e cansado.

 

Quarta-feira.

As direções tomadas na terça,

Na quarta mudarei trajeto e traçado,

Revogarei certezas

E outras tomarão o lugar daquelas,

A cabeça preenchida de ruas e fantasias desconhecidas,

Estradas tortas que levam ao nada.

 

Quinta-feira é sempre um novo dia,

E assim como quem corta cana,

Assim com quem trabalha quebrando pedra,

Ainda que seja um novo dia

Na quinta estarei assim, alquebrado,

A alma vacilante

E farto de comer e beber.

E já aborrecido de me olhar no espelho,

E um dia mais velho cultivando o mesmo jardim.

 

Sexta feira é o sexto dia.

Choverá estrelas e os astros andarão em parelha.

Na sexta é assim.

Sempre acordo com algum pensamento esdrúxulo.

Sonhei que havia lido um livro no domingo

E o livro contava a história real de um homem,

Um homem que dizia haverem lhe roubado a via Láctea.

E talvez por ser sexta-feira,

Ao meio dia abrirei os olhos

Verei com absoluta nitidez o quão fraco, covarde e vil eu sou.

Isso me trará alguma tristeza,

E por esta razão atrasarei o almoço em uma hora.

 

Finalmente será sábado.

Sobre panos brancos pintarei tintas

Multicores paisagens de nuvens negras,

Em branco a folha manchada de confissões.

E como é sábado,

Ao anoitecer,

Calma e solene

A esperança retornará.

 

29 de abril de 2012

 




Escrito por shidon às 19h07
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PRISÃO

 

Certo dia saí pela vida a visitar saraus.

 

E de estar num deles

Lá bem além da ponte,

Alguém que há tempo não me via,

Ao me ver de novo perguntou:

 

-Eaí, Shidon sumido, estava preso?

Eu olhei para ele e respondi:

-Não.

 

E segui,

Pensando minha condição,

Carregando ossos, carne e sangue.

 

 

23 de abril 2012




Escrito por shidon às 11h52
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A GAVETA

 

Igual a uma gaveta repleta

Uma só entre tantas outras

Sentado à mesa do meu crânio

Quieta a algazarra do meu coração.

 

Que tipo de treva eu sou?

Ando pelo mundo há muito

Vejo as chuvas os canteiros

Aqui as nuvens lá o fogo

Fonte de todas as coisas com nome

Bebo na fonte o sopro em palavras.

 

Em meio à lama adormeço séculos

E cada despertar é um piscar de olhos,

Sombra de luz a me revelar toda forma concreta.

 

Em que treva me acho agora?

É de manhã cedo

O sol brilha e trinca a terra.

Vestida de calor a semente rebenta

E as montanhas são tão reais que se movem.

 

Alguém abre a gaveta,

Miríades de seres e palavras em vôo.

 

O que era eu sou 

Gaveta vazia

Já não é mais.

 

22 de abril de 2012




Escrito por shidon às 21h38
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EXERCÍCIO

 

Como quem foi contemplada com a sorte

Minha mão se estende aberta e recebe;

 

Agarro no ar um punhado de átomos

Para depois num gesto em leque jogar a mão em direção ao céu,

 

E de volta espalhá-los pelo universo.

 

E entendo o que há de relativo,

Quando é dia aqui dorme-se lá.

 

O cessar da tempestade é só um hiato.

 

Entre um e outro pôr-do-sol

Tudo o que é nada será.

 

E nada é meu.

 

10 de abril 2012

 




Escrito por shidon às 11h41
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DA RELATIVIDADE DAS COISAS

 

Quando a tarde declina sobre os lençóis,

E vestidas de sombras são todas as coisas,

Quando chega a exata hora do meio

À cadeira do pensamento me sento,

E em cadeia por um momento mais penso:

 

Se vejo o que vejo,

Não o vejo de moto próprio;

Meus olhos só me servem se eles se servem da luz.

 

Em cegueira e na mais espessa  escuridão estou 

Até que volte a Luz.

 

 

9 de abril 2012

 


 




Escrito por shidon às 18h50
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SINISTRO CINISMO

 

O destino de toda farsa é um irremediável cansaço.

Ando cansado.



Escrito por shidon às 15h41
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Eu penso em você ontem hoje e amanhã.

 

22.02.2012



Escrito por shidon às 15h04
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CARNAVAL

 

Estranhos dias.

Sobre os campos de vidro minados

Forrados de plástico e esperma

As cores submergindo pálidas

Horas e dias contados

Navio fora de rota a naufragar

O fim do mundo chegando,

Que antes de acabar mesmo,

Muitas vezes se acabará.

 

Uma-a-uma as falanges

À luz do meio-dia na rede conectadas

Em fuga no galope das longas noites lancinantes

Longas noites acesas de mares

Riscas brancas brilhantes traçadas

As linhas de cena sobre o palco desenhada

E a mesma cena

A mesma coisa vivida

Na carne reavivada a senha

O choro da criança

O grito animal dos adolescentes na praça de esportes,

Entremeados do latir de cães no cio.

 

Estranhos dias

Em que a devassidão é idolatrada em altares

Finas lâminas de luz em todos os canais e vias  espelhados

Devassa a contemplar a nudez de si mesma

Escancaradas todas as portas 

Aberto os portos solidões.

Estranhos dias.

 

19 de fevereiro de 2012




Escrito por shidon às 14h17
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DESCONCERTO

 

ainda que soubesse com precisão

o peso de um quilo fracionado em trilhões de esferas celestiais

na forma de uma bola perfeita ainda

ainda que

ainda que não haja

não há

não haverá reticências no meu falar

fruta doce você

doce de leite e amendôas coradas de caramelo

e gostosuras guardadas nos frutos do paraíso  

ter você a meu lado todo dia toda hora

que besteira não é dor

é saudade

chega dessa coisa

dessa vara de marmelo

e pescaria de nada sonhos rio abaixo

e outros beijos e carícias e pores-do-sol poentes

e beijos e tuas mãos

tuas súplicas e ladainhas e gritos gemidos gozos

e sonoras gargalhadas invadindo

a boca da noite coroada de pétalas e pérolas

na força da nossa união louca união doce união

experiência nuclear na carne a reverberar pelo universo

ondas se espraindo nos mares da lua

que bobagem é só o tremor da alma na carne

o resvalar de uma fímbria de luz

sobre a tua pele acesa na  escuridão

e desejos de pântanos profundos

no entanto sei

é só amor

desejo de carregar em nossas bocas a hóstia da nossa comunhão

 nada mais

lamber e engolir o vinho derramado dos teus desvãos

do teu ser corpo de ventos amarelos

e girassóis beijando ninfas e sátiros

à beira das fogueiras de estrelas

deitados sobre o disco de luz da via-láctea

e eu iria além amor

pra resolver esta parada nada certa de você ficar londe de mim.

 

8/2008



Escrito por shidon às 23h12
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