shidon soares


REZA BRABA

 

Senhor, me levantei hoje repleto de alegria.

Tu o sabes, todos os dias da minha vida assim o tem sido.

Poderá o sol não brilhar aqui agora em mim,

Mas as bagas de trigo douradas estão a se dobrar no campo,

Igual querendo reverenciar toda beleza que se estende pelos céus.

E as abelhas, certas de saberem o que fazem,

Flor-a-flor estão a beijar e espalhar o pólen que reproduz a vida.

 

Eu sei, Senhor, muitas vezes a existência se torna amargo ácido,

Feito um caldo gosmento que entorna e se impregna nas veias,

E minhas horas nessas horas se enchem de desvairo,

Qual fosse eu um sátiro a atirar setas venenosas nas teias do existir.

Então escrevo espinhos, imensos vazios, vertigens, abismos, dores,

Esperanças que se fragmentam pelo espaço-tempo em labirinto

Cacos de vidro que se cravam em minha alma e caminhos

Instantes em que não vejo nem encontro qualquer saída,

Tardes nas quais se esvaem todas as minhas forças

E inúteis se fazem o clamor e as lágrimas desatadas em desalinho.

 

Mas, vede, Senhor, respirando o sopro de calor do teu vital sopro,

Hoje me levantei feliz, homem feliz que sou, à parte os ventos e moinhos.

Bebi meu café, comi da terra o pão e começou:

Me invadiram as coisas do viver, dobraram os sinos

Trabalho, cores, poesia, jornais, notícias, 

Todos nós rodeados e roteados pela tecnologia,

Embarcação que tomamos sem saber a que lugar  nos levará.

Internet, facebook, instagram, google, twiter, orkut,

A perfeita invenção levando o homem à prisão em si mesmo.

E vi entre as grades da malha virtual enredados,

Sobre o palco o falso brilho de homens que se travestem de poetas da auto-ajuda,

Cães a se proclamarem vira-latas enroupados de humildade,

Quando em verdade o que anelam é serem bem pagos vagabundos.

E não se fazem de rogados, Senhor, de boca cheia falam em nome do amor,

Feito saldo em fim-de-feira com preço baixo se auto-depreciam,

Mas se sabem valor de mercado, aqui e ali pedindo uma ajudazinha,

Cometendo orações em que cospem versos com o nome de Deus,

Aos crentes incautos, viúvas, solitários e abandonadas, aos quais encenam atitudes vazias

Àqueles crentes sem rumo que se arrastam e ao redor deles feito moscas se amontoam ,

Crentes de terem encontrado um lugar para descansar suas carestias.

 

Então, Senhor, ouço a chuva e uivos de alegria encharcam a minha alma.

E sou um homem feliz porque posso ver e ouvir a chuva cair,

E sei que a chuva não lavará os meus pecados,

Que são muitos e de variadas espessuras e calibres.

 

A chuva passa, ares limpos e em águas passadas as calçadas,

Diante de outros homens paro, homens preocupados,

Ou mais que pré, na soberba ocupados com Malafaias, Soares,

Waldomiros e Edires, vestidos nas suas alfaias de feno,

Os de fora invejosos dos de dentro com fama e grana entesouradas,

Cada qual com seu discurso na intenção e ardil de comover as pedras,

E outros atacando a bela que brilha na tela acesa da mal falada rede de TV,

Prontos e maquiados para se for o caso nela aparecer sem paga de cachê.

São os Simeões Estilitas a se curvarem aos próprios pés diante da multidão,

Inútil sacrifício de ascetas da ilusão a deitar pelo chão os castelos de areia.

 

Senhor, levantei-me hoje repleto de alegria,

E descrevi o que no correr do dias vi,

E isso, Senhor, isso não me faz ou me fará menos feliz.

Ver nos homens ser o que são,

Centelha que sou foi me ver no espelho cara-a-cara,

E não obstante eu nada ser, nada posso negar do que vi e vivi.

 

A chuva voltou a cair de novo.

 

07.02.2013



 

 

 

 




Escrito por shidon às 14h21
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


VERTIGEM

 

Desdobra-se, feito negro profundo abismo

Diante de meus pés o tapete insondável da noite

Em toda a sua extensão a vertigem dos dias,

Tempo-espaço recheado da teia das galáxias,

Nuvens de gás, buracos negros, quasares,

Distâncias incompreensíveis 

E mistérios que jamais ser-me-ão revelados.

 

Embriagado do torpor das horas,

O sangue nas veias a latejar vozes do passado

Entre as mãos seguro meu crânio e me percebo,

Sou uma armação óssea recheada de carne e sangue

E por um instante quase acredito,

A vida é bela, larga e iluminada a estrada,

Para no instante seguinte me deixar cair na real:

A vida, em verdade, é um abismo de indecorosas misérias,

Dores lancinantes edulcoradas pela inexplicável e humana,

Tão absurda, estupidamente humana esperança.

 

Largo a pesada cabeça de entre as mãos e deixo tombá-la,

Outra vez a esperança se arrastando ao meu lado

Sombra dos meus mais impossíveis desejos,

Meus dedos mergulhados entre lágrimas,

Em fuga a translúcida e desvairada alegria vivida,

Momentos que dividi com alguém amado,

O vento solar soprando em mim estranha fantasia,

Pesadelo que se rasga e se renova entre os dentes da razão.

 

E enquanto desato metáforas e amarras de nó cego,

Ao longe vejo vindo em minha direção a madrugada.

Penso repouso entre as brumas do cansaço,

E de adormecer acordam em meu coração bocas de pavor

O orvalho dos séculos respingando ressumar de  espinhos,

Sobre as pétalas do destino o derrame da melancolia das eras,

Até o inexorável amanhecer.

 

02.02.2013




Escrito por shidon às 20h40
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


AGUARDENTE

 

Pode chover em mim o quanto for de tuas águas.

Sou um poço sem fundo de sede por você.

 

04.02.2013



Escrito por shidon às 19h10
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


CENÁRIO

 

Misturar-me com você sem clichê;

No escuro de um quarto

Luz, câmera, tesão,

Cena de cinema único ato.

 

4.02.2013



Escrito por shidon às 16h34
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
 
Histórico


Votação
Dê uma nota para
meu blog



Outros sites
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis